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Bienvenido aos quadrinhos argentinos
Livro da editora Zarabatana revela que a produção do país vizinho
vai muito além de Mafalda
Os brasileiros conhecem pouco do quadrinho argentino. Já leram Mafalda, as mulheres alteradas de Maitena, as tiras de Macanudo, de Liniers, publicadas diariamente no jornal Folha de S.Paulo. Mas não muito mais que isso. A produção do país vizinho é muito maior, como revela o livro Bienvenido – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos, do jornalista e pesquisador Paulo Ramos.
A obra, publicada pela editora Zarabatana, faz um raio-x dos trabalhos, dos autores e da produção editorial de lá, tanto as do presente quanto as do passado, dos títulos impressos às novas experiências virtuais. O livro mostra os quadrinhos mais conhecidos – como os de Quino, criador da questionadora Mafalda – , mas se preocupa também em detalhar outras séries importantes na história do país.
Um caso é ficção científica El Eternauta, publicada pela primeira vez há mais de 50 anos. A obra foi incluída pelo governo argentino entre os cem títulos essenciais para serem lidos pelos estudantes. O autor da série, Héctor Germán Oesterheld, é tido como o principal roteirista argentino, embora quase desconhecido no Brasil – é dele a biografia em quadrinhos de Che Guevara.
Oesterheld foi sequestrado e assassinado pela ditadura militar argentina na década de 1970. Ele, as quatro filhas – duas delas grávidas – e os dois genros. Da família, sobreviveram apenas a esposa, Elsa, e dois netos. A viúva revela no livro o fantasma que foram esses dias. Dias que contrastam com a alegria do convívio familiar e com a vasta produção de quadrinhos do marido, que teve trabalhos desenhados pelo italiano Hugo Pratt – o autor da série Corto Maltese atuou na Argentina entre as décadas de 1950 e 60.
A vida e a obra de Oesterheld tomam dois dos dez capítulos de Bienvenido – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos. O livro-reportagem aborda também o impacto de Mafalda nos quadrinhos e no turismo do país, o papel dos jornais como janela para a produção nacional, as produções independentes, as virtuais, as que tiveram vendas expressivas no passado, o mercado de ontem e o de hoje, este dividido entre bancas de jornal, lojas especializadas e livrarias.
O livro é a obra mais expressiva sobre os quadrinhos argentinos já publicada no Brasil. O autor, que também é professor do curso de Letras da Universidade Federal de São Paulo, estuda o tema desde 2007, quando viajou para Buenos Aires. Desde então, realizou mais cinco idas ao país. A última passagem pela Argentina foi em dezembro de 2009, para fazer uma última atualização dos dados.
A capa foi feita pelo argentino Liniers especialmente para a obra. O prefácio é do desenhista brasileiro Adão Iturrusgarai, que mora há três anos na Argentina.
Título: Bienvenido – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos
Autor: Paulo Ramos
Editora: Zarabatana
Páginas: 176
Preço: R$ 36,00
À venda no fim de abril de 2010
Paulo Ramos é jornalista e professor do curso de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, é autor de A Leitura dos Quadrinhos e organizador de Muito Além dos Quadrinhos – Análises e Reflexões sobre a 9ª Arte e Quadrinhos na Educação – Da Rejeição à Prática. Na imprensa, trabalhou como repórter, repórter especial, editor, editor-executivo, editor-chefe e âncora de telejornal nas TVs Cultura e Tribuna (afiliada da Rede Globo no litoral sul de São Paulo). Teve duas passagens pela Folha de S.Paulo, a última como consultou de língua portuguesa, função que exerceu também no UOL. Também no portal, mantém uma página jornalística com informações sobre quadrinhos, o Blog dos Quadrinhos. Pelo trabalho, venceu três troféus HQMix, principal premiação de quadrinhos do país.
A Zarabatana entrou no mercado de quadrinhos em 2007. Mantida pelo publisher Claudio Martini, a editora possui um catálogo eclético, com diferentes gêneros, voltados para leitores de várias faixas etárias. Há de mangás a álbuns europeus, de projetos inovadores norte-americanos a trabalhos autorais de quadrinistas brasileiros. A Zarabatana é uma das poucas editoras brasileiras que publica obras de autores argentinos. Já lançou duas obras do roteirista Carlos Trillo, um dos principais do país vizinho (Clara na Noite e Cicca Dum-Dum), e foi quem trouxe as tiras de Liniers para o Brasil (publicou duas coletâneas de Macanudo e programa outras duas para 2010).









SOBRE A CAFÉ ESPACIAL EM CURITIBA
Siga a Gata da Bike!
Essa foi a chamada que a Itiban e a Café Espacial usaram como convite para o lançamento da sexta edição da revista independente em Curitiba. Claro, o lançamento foi aqui a Itiban.
Guilherme Caldas,Lídia Basoli,Sérgio Chaves,Laura Gattaz
Os simpáticos Laura Gattaz, Lídia Basoli e Sergio Chaves, editores da revista, e o desenhista Guilherme Caldas, conversaram com quem veio. O pessoal da Café espacial, inclusive, explicou de onde vem o dinheiro pra publicação da Café Espacial:
“Do nosso bolso.”
Os colaboradores da publicação fazem exatamente isso: colaboram. Não há pagamento. Ninguém ganha dinheiro com a “Café Espacial”. Talvez a gráfica que a imprima. Mas não é isso que impede a revista de chegar até em Portugal.
Distribuída pelo esquema colaborativo do coletivo Quarto Mundo para boa parte do Brasil, a Café Espacial está disponível para o público europeu, na galeria (de criativo nome) Dama Aflita, na cidade do Porto.
A Café Espacial existe desde 2007, quando o fanzine Justiça Eterna, idealizado por Sergio e coeditado por Lídia, se transformou na publicação como conhecemos hoje. De lá pra cá, uma edição a cada 6 meses, aproximadamente.
Com a constância de publicação dentro do possível, a Café Espacial firmou-se e ganhou confiança dentro desse estranho mercado dos quadrinhos nacionais. Mas nem tudo é HQ na revista. A proposta é que também haja espaço para cinema, música, fotografia e literatura.
O reconhecimento do trabalho dos “baristas siderais” é a qualidade dos nomes envolvidos na revista: Guilherme Caldas, DW, Laudo ferreira, Sueli Mendes, Fabio Lyra, Mario Cau, Jozz. Todo mundo colaborando pela revista.
E Laura, Lídia e Sergio já pensam edições especiais, como uma publicação de contos de Jana Lauxen e em aumentar o ritmo de lançamentos: a intenção é que em 2010 sejam lançadas três edições. Foi a primeira, só faltam duas. A dificuldade pra isso? A de sempre: dinheiro.
Apesar dos patrocínios na revista e da verba conseguida com a venda das edições anteriores, os custos das viagens pra divulgação ficam por conta deles mesmos.
É de se pensar porque esse povo da Café Espacial quer arranjar mais trabalho. Ou porque quer qualquer trabalho. Todos eles estudam e trabalham, e usam seu tempo “livre” pra tocar a edição da revista, sem ganhar nada por isso.
A não ser a satisfação de ver impressa e de pôr em existência no mundo algo de que se orgulham.
Pensando bem, dá pra entender porque eles fazem a revista, sim.
por Lielson Zeni













Invado este espaço para falar de duas obras que me surpreenderam muito. Mas, antes, quero contar uma história. Anos atrás, conheci a paciente de uma amiga. Minha amiga é psicóloga e trabalhou como voluntária num centro de apoio a mulheres vítimas de abuso. Todo tipo de abuso (e existem mesmo abusos de muitos tipos, não parece haver limites para violência). Estávamos fazendo umas entrevistas, trabalhando no caso dela. E essa experiência me fez pesquisar um pouco a respeito. No mesmo ano, decretaram a Lei n. 11.340, a Maria da Penha, cujo intuito foi “criar mecanismos para coibir e prevenir a violência familiar e doméstica”, entende-se, aquela que acontece em casa, sob os olhos de todo mundo, mas que nunca são sequer registradas pelas vítimas. Por amor.
Foi nessa época que caiu em minhas mãos a graphic novel autobiográfica de Rosalin B. Penfold, Mas ele diz que me ama (Ediouro, 2006). Ela exemplifica perfeitamente algumas coisas que aprendi com essa amiga. Principalmente o quanto uma relação amor-ódio é devastadora, o quanto a carência pode ser preenchida com qualquer sentimento e como isso se torna um “amor” doentio e violento, o quanto a insegurança e o remorso fazem parte da vida das pessoas envolvidas em relações desse tipo. Conhecer uma história como essa, autobiográfica e em primeira pessoa e, talvez o mais importante para apagar nossos preconceitos, de uma mulher nem tão longe assim do nosso mundinho possível, é uma ótima oportunidade de repensar as relações humanas.
Recentemente terminei a leitura de Loucas de amor, obra mista de Gilmar Rodrigues, com quadrinhos de Fido Nesti. Que me impressionou muito também. Essa obra é o resultado de uma grande pesquisa de Gilmar a respeito de mulheres que se envolvem romanticamente com assassinos seriais e criminosos sexuais. A curiosidade em saber o que passava pela cabeça daquelas mulheres que, de suas casas silenciosas durante a madrugada, talvez ouvindo o barulho do sono da família, escreviam cartas apaixonadas e sinceras para destinatários como Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque, foi o que levou Gilmar a esse trabalho.
Mas que tipo de perversão seria essa? Quem gostaria de manter um relacionamento sério com um estuprador psicopata, com um mutilador? Não é possível julgar. Da mesma maneira que não é tão simples assim sair de casa depois de levar uma surra do marido e ir à delegacia prestar queixa. Ninguém gosta de apanhar, mas alguns sofrimentos parecem piores numa escala terrível de uma vida toda vazia.
Gilmar se deparou com todo tipo de caso. Desde o amor platônico, alimentado por algumas mulheres casadas, cuja vida tornara-se terrivelmente truncada, como daquelas partidas nulas de jogo da velha, até caso de esposas e amantes que se sentiam princesas nos dias de visita íntima. As celas onde faziam amor (e a expressão brega aqui faz todo o sentido) era um ponto de (sim, é verdade) suavidade entre duas realidades terríveis.
Em ambas as histórias chegamos pertinho da fronteira entre o amor e a morte. Sempre pensei nisso: uma carícia e um tapa, em princípio, é o mesmo ato.
Recomendo a leitura. Nos faz pensar um pouco sobre coisas grandes, como as relações humanas. Nossa fragilidade habitual, intensificada nesses tempos tão estranhos, não nos deixa tão longe assim desse tipo de angústias.
All we need is love, disseram por aí.







