terça-feira, abril 01, 2008

Quadrinhofilia e José Aguiar-por Rober Machado

Um catálogo de qualidades artísticas
Rober Machado

No álbum Quadrinhofilia, José Aguiar reuniu diversas histórias curtas que estavam na sua gaveta e outras que tinham sido publicadas em revistas independentes e uma delas na revista Omelete, que teve uma única edição, mas com circulação nacional. São histórias produzidas nos últimos dez anos e passeiam pelos mais diversos gêneros: mistério, ficção científica, humor, terror e relato autobiográfico. Há parcerias em várias delas, com roteiros de Gian Danton, Abs Moraes e Sabrina Lopes, mas a maioria é vôo solo do desenhista.
À primeira vista, o que chama atenção não é a diversidade de gêneros de histórias, mas a variedade de estilos de traços que José utiliza nos seus desenhos. Variam desde um estilo próximo do realista até um traço bastante anguloso, quase caricato. Para quem só o conhecia de trabalhos como Folheteen e O Gralha, vai se surpreender.
Como toda coletânea, sempre há altos e baixos, ainda mais quando abrange um período amplo que inclui o início de carreira. Há algumas histórias curtas em preto e branco que trazem diversas experiências narrativas, algumas atingem um ótimo resultado como Noite... e Poréns da Vida Herdada dos Outros, e em outras ficam mais como um exercício de estilo, como Absoluto. Pirata! só vai ser entendida por quem conhece os quadrinhos italianos e sacar a referência a Dylan Dog.
Nas histórias coloridas também há algumas oscilações, mas um pouco menos. Catarrinho do amor começa e termina muito bem, o desenvolvimento na parte dos nomes exóticos fica repetitivo, principalmente para quem já viu esses nomes circulando em e-mails pela Internet.
O Gabinete do Dr. Caligari faz uma adaptação muito boa do filme de 1919. Talvez não agrade os fãs do filme por acrescentar cores à história, mas foi um ótimo trabalho de colorização, que dialoga muito bem com os tons escuros da história.
As cores e a arte também são os destaque de O Triste Fim de João e Maria e Entropia, essa última com clara influência de Moebius. Já em Genealogia do Mal só trabalha com tons de vermelho que foram pintados por cima de uma fotocópia, um ótimo resultado e também um dos pontos altos do álbum.
Outro ponto alto é a sua história mais recente, mostrando sua viagem pela Europa conhecendo o mercado de quadrinhos por lá. Não é uma reportagem em quadrinhos e sim um relato de viagem, com suas impressões sobre o que vivenciou. Fica claro que ele deveria produzir mais histórias assim.
No final há um posfácio no qual José Aguiar conta os bastidores de produção do álbum e de cada uma das histórias. Só faltou informar a época de produção de cada uma, só fala de algumas delas.
A edição da HQM ficou muito bonita, com uma ótima capa e contracapa, e deve chamar a atenção nas prateleiras. Só há um problema com a primeira história, Baile de Salão, que ficou ligeiramente desfocada, talvez olhos menos atentos nem notem isso. Mas nada que impeça a compra do álbum.



Entrevista com José Aguiar
Rober Machado

- Como surgiu o projeto do álbum? Você procurou a editora ou eles vieram atrás de você?
Essa era uma idéia antiga. Há muito tempo eu queria tirar algumas histórias antigas do fundo da gaveta, mas que nunca foi para frente pois, primeiro, eu não era um autor conhecido. Apresentei a idéia a alguns editores mas eles não achavam que era o momento. Como o pessoal da HQM me convidou a publicar uma HQ curta numa revista que eles iriam produzir, mas que acabou não saindo, apresentei a idéia e eles gostaram. Agora com esse material publicado, acho que posso dizer que o começo de minha carreira ficou para trás.

- Quadrinhofilia também é o nome de sua coluna no site Omelete. De onde surgiu a idéia desse nome e por que batizou o álbum assim?
Essa palavra é um neologismo que criei quando decidi revirar meus gibis velhos para escrever uma coluna fixa no Omelete. O sufixo "filia", confesso que tirei da palavra necrofilia. Afinal, a minha intenção na coluna era revirar minha coleção de quadrinhos mortos e enterrados em busca de idéias. O mesmo nome emprestei a uma exposição onde fiz um balanço de minha carreira, realizada em 2006 no Solar do Barão, nas comemorações dos 24 anos da Gibiteca de Curitiba. Para minha surpresa ela foi indicada ao Troféu HQ Mix de melhor exposição daquele ano. Não levei o prêmio, mas daí me veio a convicção de que este era mesmo o nome do meu livro.

- No álbum há histórias de épocas diferentes e com diferenças no estilo dos desenhos. Você consegue mudar de traço facilmente? Há algum estilo de sua preferência?
Sim, principalmente por terem sido feitas em períodos de bastante experimentação, acho que o livro é quase um catálogo do que posso fazer. Hoje o traço que me flui mais fácil é o anguloso, como nas histórias Catarrinho de Amor, Quadrinhos em outras bandas (desenhadas) e no álbum Folheteen. Mas no geral transito por esses traços sem grandes problemas. Tento apenas adequar o desenho ao roteiro.

- No álbum também há parcerias nos roteiros, você gosta de trabalhar com roteiros de outras pessoas ou prefere fazer tudo sozinho?
Já trabalhei com Gian Danton, Abs Moraes, Antonio Eder, Wander Antunes e André Diniz. Todos têm seus estilos e isso sempre foi uma escola para mim. Eu só tenho a ganhar com parcerias. Mas há histórias pessoais, como as de Folheteen e as demais que fiz sozinho em Quadrinhofilia. Essas só dariam certo sozinho.

- Existem mais histórias soltas para serem publicadas?
Publicáveis? Acho que não. Eu fiz uma boa seleção para o livro. Tentei colocar as melhores. Tenho alguns roteiros em parceria na gaveta esperando a vez e outras HQs que quero fazer sozinho, mas nada pronto. Espero fazer um Quadrinhofilia 2 com elas.

- Vai haver outro álbum do Folheteen?
Sim, com certeza. O livro está na fase de roteiro. É um projeto delicado, pois retoma a história de onde o primeiro livro parou, mas sob novo ponto de vista.

- Fora o Folheteen, tem algum outro projeto de álbum?
Estou numa fase de muitos projetos em execução. Este ano sai a Guerra de Canudos, onde ilustrei o texto de André Diniz para a Escala Educacional. Há também outros projetos antigos como o segundo álbum do Gralha, pronto há anos e em negociação para sair. Mais que desenhando, estou escrevendo bastante no momento. Além da continuação de Folheteen, estou escrevendo Pensão João, que adapta uma de minhas tiras de humor para o formato de álbum e Coisa de Adornar Parede, dando seqüência a uma série de HQs que saiu na extinta revista curitibana Entropya. Junto com Paulo Biscaia Filho, diretor dos espetáculos Graphic e Morgue Story, estou elaborando dois projetos unindo teatro e HQ: Vigor Mortis Comics, HQs que além de adaptar os espetáculos que citei, irão expandir o universo dos espetáculos. Também estamos escrevendo juntos uma peça com o título provisório de Catacumba, que homenageia as antigas revistas de terror como Kripta e Calafrio numa história passada na ditadura militar. Outro projeto que não é bem quadrinho, mas está em andamento é Reisetagebuch - uma viagem ilustrada pela Alemanha, onde narro minhas impressões daquele país. O projeto renderá uma exposição no segundo semestre e também um livro, inspirado nos que são publicados pela Editora Casa 21. A história Quadrinhos em Outras Bandas (Desenhadas) presente em Quadrinhofilia é um prelúdio desse projeto. Para conhecer mais desse projeto, convido que visite o blog: http://www.quadrinhofilia.blogspot.com/
Previews dos meus projetos e meu blog oficial estão em http://www.joseaguiar.com.br/ Enfim, se tudo der certo, até 2009 terei muita coisa publicada.

- Você já publicou na Europa, gosta do modelo deles de álbuns ao invés de revistas mensais? Acha que seria um bom modelo para autores nacionais?
Eu gosto de ambos os modelos. Quando eu fazia o Gralha me divertia muito com o planejamento de uma série contínua. Mas acho que, no momento, o ideal para o autor local é o livro fechado para venda em comic shop e livraria. Esse modelo se aproxima mais do Europeu e os riscos são menores pois o produto tem mais tempo de vida.

- Qual a sua opinião sobre o atual mercado brasileiro de quadrinhos para autores nacionais?
Ele está se abrindo. Começam a surgir mais editoras interessadas nos autores daqui, em temáticas mais próximas de nosso imaginário. Não precisamos só copiar modelos. Há interesse de crítica e leitores por novidades. Hoje não se vende tanto com ha 10, 20 anos atrás, mas é possível ser um autor alternativo e respeitado. Antes isso não existia. Para mim , a carreira de Lourenço Mutarelli é o melhor exemplo disso. Ainda não há uma estrutura que sustente o artista, mas a vitrine, graças a internet e as livrarias e comic shops, nos deu meios de existir.
Eu acredito que estamos num momento de efervescência. Só a produção local (Curitiba) é um bom termômetro desse rebuliço que irá redefinir o que será o mercado brasileiro de HQ daqui a alguns anos. Os autores estão parando de chorar que ninguém os publica e estão correndo atrás. Os editores estão de olho nisso, nessa profissionalização.
Aproveitando a ocasião, quero agradecer de novo ao apoio maravilhoso da Itiban para que isso esteja acontecendo.
Obrigado por mais essa oportunidade de divulgar meu trabalho.