quinta-feira, outubro 15, 2009

Guy Delisle

Guy Delisle (esquerda) mostra seus desenhos pelo notebook

Em uma das salas de exposições os visitantes puderam conhecer alguns trabalhos não publicados no Brasil do canadense
Guy Delisle (autor de Shenzhen, Pyongyang, Crônicas Birmanesas, todos editados pela Zarabatana). Alguns exemplos são Aline (livro que retrata 26 mulheres, uma para cada letra do alfabeto), Albert (mesma linha de Aline) e o livro infantil Louis à la plage, inspirado em seu próprio filho “mignon”.

Delisle trabalhou com animação por 10 anos. Da Europa, partiu para a China a fim de supervisionar equipes de desenho e resolveu transformar a experiência em HQ. Assim nasceu Shenzhen, cujas histórias foram publicadas separadamente em revistas. O autor conta que optou por utilizar giz de cera e fazer a história em p&b para passar a sensação de poeira e sujeira das construções e ruas chinesas.

Pyongyang surgiu de uma viagem de 2 meses ao país mais fechado do mundo: a Coreia do Norte. Entre as duas HQs, passaram-se 5 ou 6 anos. Delisle disse em sua palestra que tomava notas e fazia desenhos à noite. Quando retornou à França, fez a história. As linhas finas agora sugerem o aspecto limpo do país, e o modo como Guy desenha a estátua gigantesca de Kim Jong-il também serve para ridicularizá-la e apresentar sua própria visão: ela é desconstruída a partir da ordem pela qual é vista: pés, tronco e cabeça, perdendo parte de sua imponência.

Após passar um ano em Mianmar (antiga Birmânia), construiu o livro Crônicas Birmanesas também na França. Ele utiliza fotografias para os detalhes, mas muitas vezes usa somente sua memória. A rotina é composta por escrita pela manhã e desenhos à tarde. Um bom dia de trabalho rende 1 página, mas o trabalho “devagar” lhe permite lembrar do começo da história e assim, dar uma boa continuação e um bom ritmo de leitura.

Uma dúvida da plateia era se o autor tinha interesse jornalístico. Delisle respondeu, sempre com muita calma, que não tem como objetivo denunciar. Ele quer descrever a vida e o cotidiano, e não é possível falar da China, por exemplo, sem abordar censura e política, pois são detalhes preciosos ao tratar do país.

O traço autobiográfico, ao mesmo tempo que aproxima o leitor, possibilita a Delisle fazer uma segunda viagem junto a nós. E o humor é inevitável para passar a informação de forma mais agradável.

Apesar das dificuldades iniciais, ele afirma que a cena de quadrinhos está mudando rapidamente. No entanto, a capa de Pyongyang sofreu alterações na Noruega para não passar a imagem de história em quadrinhos, tida como infantil.

Delisle não tem interesse em transformar suas histórias em animação. Quanto ao que está por vir, sketches de seu antigo blog serão publicados. Ele também passou por Israel em 2009 e agora pelo Brasil, mas gosta de esperar para reler suas notas e então pensar se pode virar um livro. Quem sabe estaremos no seu próximo trabalho.


por yasmin